A amplitude negligenciada da cultura dos chimpanzés
postado em 15 set 2026
Legenda: Pexels - Guerrero De la Luz

Um estudo de longo prazo realizado pelo Instituto Max Planck de Comportamento Animal publicado recentemente sugere que a cultura dos chimpanzés inclui muitos comportamentos cotidianos essenciais para sua sobrevivência.

Direto ao ponto
A cultura não é exclusiva dos seres humanos: ao longo do último século, pesquisas demonstraram que muitas espécies animais são capazes de transmitir comportamentos culturalmente.

A verdadeira dimensão das culturas animais ainda não está clara: a amplitude dos repertórios culturais dos animais e a importância da aprendizagem cultural em sua vida cotidiana permanecem pouco compreendidas.

Novos conhecimentos sobre a verdadeira dimensão da cultura dos chimpanzés: ao estudar diretamente a aprendizagem social em ação, um novo estudo demonstra que a cultura dos chimpanzés vai muito além do que se reconhecia anteriormente.

Cientistas identificaram dezenas de comportamentos culturais anteriormente negligenciados em chimpanzés selvagens, sugerindo que a cultura desses grandes primatas se estende muito além de habilidades complexas, como o uso de ferramentas. Em uma única comunidade, eles encontraram quase 70 comportamentos que os chimpanzés parecem aprender uns com os outros — praticamente o dobro das estimativas anteriores sobre comportamentos culturais entre as populações de chimpanzés africanos.

Os pesquisadores passaram vários anos observando chimpanzés selvagens na floresta tropical de Uganda para documentar a variedade de habilidades que esses animais aprendem ao observar outros indivíduos. Eles descobriram que os chimpanzés aprendem culturalmente uma ampla gama de habilidades “básicas”, incluindo a busca por alimento, a catação, as brincadeiras e o cuidado de ferimentos — muitas delas essenciais para a sobrevivência.

“A cultura animal não precisa ser rara ou complexa. Ela pode incluir habilidades básicas usadas todos os dias, como encontrar alimento e saber como comê-lo”, afirma uma das autoras do estudo, Nora Slania.

Foco em comportamentos marcantes
Os chimpanzés possuem a maior cultura conhecida do reino animal. Historicamente, as pesquisas sobre a cultura dos chimpanzés concentraram-se em comportamentos marcantes, como o uso de gravetos para pescar cupins, documentado de maneira pioneira por Jane Goodall no Parque Nacional de Gombe. Esses comportamentos eram considerados exemplos claros de cultura porque nem fatores genéticos nem ambientais conseguiam explicar por que algumas comunidades de chimpanzés os apresentavam e outras não.

“Excluir as causas genéticas e ambientais da variação comportamental foi um primeiro passo metodológico importante para demonstrar a transmissão social e, consequentemente, a existência da cultura animal”, acrescenta Slania.

Utilizando essa abordagem, pesquisas anteriores haviam identificado 39 comportamentos culturais entre os chimpanzés. No entanto, o novo estudo sugere que esses números podem ter subestimado significativamente a verdadeira amplitude cultural dos chimpanzés. Os pesquisadores propõem que a transmissão cultural pode ser demonstrada por meio do estudo direto dos comportamentos que fazem parte desse processo, independentemente das influências genéticas e ambientais.

“Na vida cotidiana dos seres humanos, a cultura está presente em todos os lugares, inclusive na maneira como falamos, nos vestimos ou comemos. Não exigimos que os comportamentos sejam especialmente extraordinários ou independentes do nosso ambiente”, afirma Caroline Schuppli, outra autora do estudo. “Os animais, porém, há muito tempo são submetidos a critérios mais rigorosos. Ao adotar uma visão mais inclusiva de cultura — e critérios mais comparáveis aos aplicados aos seres humanos —, pesquisas futuras poderão revelar que muitos animais têm culturas mais ricas do que se reconhecia anteriormente.”

Foco na observação atenta (peering)
A equipe internacional de pesquisadores concentrou-se na observação atenta (em inglês, peering), comportamento em que um animal acompanha de perto e cuidadosamente o comportamento de outro. Esse tipo de observação é especialmente bem estudado em orangotangos e macacos-prego como forma de aprendizagem. No caso dos chimpanzés, pesquisas anteriores já haviam demonstrado que a observação atenta ajuda os indivíduos a adquirir habilidades complexas, como o uso de ferramentas. Entretanto, ela nunca havia sido estudada como método para avaliar toda a dimensão da aprendizagem cultural dos chimpanzés.

Durante mais de dois anos, a equipe acompanhou 28 chimpanzés selvagens de todas as idades — de filhotes a adultos mais velhos — na Budongo Conservation Field Station, em Uganda. Do início da manhã ao final da tarde, os pesquisadores observaram detalhadamente a vida cotidiana dos grandes primatas, registrando o comportamento dos indivíduos focais e de outros chimpanzés localizados em um raio de cinco metros. Isso permitiu acompanhar o que os chimpanzés observavam atentamente e quem eles observavam.

O papel na aquisição de conhecimento
A equipe acumulou mais de 1.000 horas de observação e registrou 366 episódios de observação atenta. Embora não tenha sido possível testar diretamente se esse comportamento causava a aprendizagem, vários padrões sugerem fortemente que ele desempenha um papel fundamental na aquisição de conhecimento.

Os chimpanzés observavam atentamente durante o período de desenvolvimento, quando precisam adquirir seu conjunto de habilidades. Os indivíduos jovens prestavam atenção especial a comportamentos que exigiam muita aprendizagem, como habilidades muito raras e complexas. Eles observavam apenas chimpanzés experientes — frequentemente suas mães, mas também outros membros do grupo sempre que tinham oportunidade.

Ao analisar os comportamentos que eram alvo da observação atenta, os pesquisadores identificaram 69 ações distintas. Apenas duas delas — usar folhas para cuidar de ferimentos e para inspecionar parasitas — haviam sido reconhecidas como culturais em pesquisas anteriores.

Embora alguns comportamentos fossem raros, a maioria das observações envolvia atividades cotidianas, como explorar, brincar, fazer catação e alimentar-se. De maneira surpreendente, a maioria dos comportamentos — cerca de 60% — estava relacionada à identificação, ao processamento ou ao consumo de alimentos, incluindo frutas, folhas e outros materiais vegetais.

“O fato de uma parcela tão grande da dieta dos chimpanzés ser aprendida socialmente evidencia a importância da aprendizagem social para o desenvolvimento desses animais”, afirma Schuppli, líder de um grupo de pesquisa no Instituto Max Planck de Comportamento Animal. “Embora alguns comportamentos possam ser simples e aprendidos rapidamente, adquirir todo o repertório cultural ainda leva muitos anos aos chimpanzés jovens”, acrescenta.

Os autores afirmam que reconhecer esses elementos culturais mais amplos é importante não apenas para compreender a mente dos animais e o quanto ela se assemelha à mente humana, mas também para os esforços de conservação. No futuro, a equipe pretende ampliar essa abordagem para outras populações de chimpanzés e outros primatas.

“O comportamento permite que os animais respondam de maneira flexível ao mundo ao seu redor, e a transmissão cultural oferece uma forma rápida de aprender novos comportamentos. Em última análise, compreender toda a dimensão da cultura animal nos ajudará a proteger as diversas maneiras pelas quais essas espécies se adaptam a ambientes em transformação”, acrescenta Slania.

 

Fonte: https://www.mpg.de/26529583/study-reveals-overlooked-breadth-of-chimpanzee-culture