Performance instrumental de um chimpanzé nos ajuda a compreender a evolução da musicalidade
postado em 08 abr 2026
Legenda: Ayumu tocando percussão e expressando vocalização (Yuko Hattori)

Por Kyoto University / Research News

Em fevereiro de 2023, um chimpanzé residente no Centro de Estudos de Origens Evolutivas do Comportamento Humano (EHUB, sigla em inglês) da Universidade de Kyoto (Japão) fez uma apresentação musical espontânea para os pesquisadores. Ayumu, um macho de 26 anos, removeu tábuas do piso de uma passarela e usou‑as para bater um ritmo, ao mesmo tempo que emitia sons complexos e estruturados semelhantes a expressões vocais. Foi algo que os pesquisadores nunca tinham visto ele fazer antes.

O bater ritmos com instrumentos não é um achado novo. Chimpanzés são bem conhecidos por seus comportamentos instrumentais e são particularmente hábeis em bater ritmos. Mas, nessa ocasião, a combinação de percussão com vocalização feita por Ayumu – apresentando múltiplos componentes rítmicos – constituiu um caso totalmente inédito.

Depois de gravar 89 “apresentações espontâneas” de Ayumu entre fevereiro de 2023 e março de 2025, uma equipe de pesquisadores do EHUB começou a analisar os vídeos. As gravações também forneceram prova do processo pelo qual Ayumu retirava as tábuas da passarela e as usava como ferramentas para fazer música.

“Foi fascinante para mim observar como o chimpanzé usava ferramentas para produzir diversos sons, ao mesmo tempo que expressava uma exibição vocal”, diz Yuko Hattori, autora do estudo.

Pesquisas anteriores sugeriram que a música, em particular o desempenho instrumental, pode ter evoluído a partir da externalização da expressão emocional por meio da vocalização combinada com o uso de ferramentas. No entanto, instrumentos de percussão antigos costumavam ser feitos de materiais perecíveis, como madeira e peles de animais, tornando difícil rastreá‑los diretamente por meio de evidências arqueológicas. Observar comportamentos musicais em nossos primos primatas fornece uma chave para compreender a evolução da musicalidade.

Usando as performances de Ayumu, a equipe de pesquisa examinou a possibilidade de que a expressão vocal pudesse se transformar em som instrumental. Eles começaram avaliando seu comportamento e o decompondo em elementos como bater, arrastar e arremessar. Depois, analisaram as conexões entre esses elementos mediante uma análise de transições, determinando quais transições ocorriam por acaso e quais eram deliberadas. Por fim, a equipe analisou os intervalos entre os golpes e comparou a estabilidade rítmica do uso de ferramentas com o ritmo de batidas realizadas apenas com mãos ou pés.

A análise revelou que a sequência de sons produzidos pelos instrumentos não era aleatória e que os intervalos entre os golpes eram isocronos, ou seja, mantinham um andamento/ ritmo constante, como um metrônomo. Na verdade, o uso de ferramentas para bater produzia um ritmo mais estável do que o uso apenas das mãos ou dos pés. A equipe também observou expressões faciais como a “cara de brincar” (play face), associada a estados lúdicos, indicando emoções positivas. Essas expressões normalmente não são relatadas em exibições vocais, sugerindo que expressões emocionais anteriormente veiculadas pela voz podem ter sido externalizadas e desenvolvidas em sons produzidos por ferramentas.

As performances de Ayumu demonstram que grandes primatas não humanos também possuem a capacidade de externalizar expressões semelhantes à vocalização por meio de instrumentos. Para estudos futuros, a equipe está interessada em analisar as reações dos outros chimpanzés no EHUB e o impacto que a exibição de Ayumu tem dentro de seu grupo social.

Informações sobre a publicação, de março de 2026:

Yuko Hattori, Pavel Voinov, Makiko Uchikoshi (2026). Combinatorial Instrumental Sound-Making in a Captive Chimpanzee: Evolution of Vocal Externalization. Annals of the New York Academy of Sciences, 1557, 1, e70239.

https://doi.org/10.1111/nyas.70239

http://hdl.handle.net/2433/300015

Fonte: https://www.kyoto-u.ac.jp/en/research-news/2026-03-27