Legenda: Pouco antes de uma cisão decisiva em 2015, um macho chimpanzé do grupo Central do Parque Nacional Kibale (olhos visíveis) abraçou machos do grupo Ocidental. Crédito: Aaron Sandel/Science.org
Especialistas que analisam o comportamento de um grupo de chimpanzés na natureza em Uganda há 30 anos publicaram um estudo inédito na revista Science esta semana. O trabalho revela detalhes de como e por que violências internas às vezes se transformam em uma espécie de guerra civil mais ampla.
É sabido que chimpanzés frequentemente lutam ferozmente por comida, parceiros e posição hierárquica, mas essas brigas raramente se transformam em algo maior. O especial desse estudo é que ele mostra como tensões em grupos antes pacíficos podem evoluir para uma violência mortal, mesmo sem escassez de recursos ou divisões culturais que a alimentem – o que faz pensar sobre as similaridades e complexidades das sociedades de chimpanzés e humanas.
Os movimentos e redes sociais de chimpanzés que vivem em uma região densamente florestada chamada Ngogo, no Parque Nacional Kibale, vêm sendo acompanhados cuidadosamente pelos especialistas desde 1995. Houve momentos em que o grupo passou de 200 indivíduos — a maior comunidade de chimpanzés já estudada. Eles viviam em dois grupos sociais principais, designados como Central e Ocidental, que conviviam pacificamente, com muitos acasalamentos entre eles.
No entanto, em junho de 2015, alguns chimpanzés dos dois agrupamentos se encontraram numa área central de seus territórios, e os do grupo Central expulsaram os do Ocidental. Desde então eles passaram a se evitar e a reprodução entre eles cessou. Machos ocidentais começaram regularmente a patrulhar o território central, buscando expandir seu domínio.
Em 2017, as tensões explodiram. Integrantes do grupo Ocidental atacaram e feriram o macho alfa do grupo Central. Entre 2018 e 2024, os pesquisadores estimam que machos do grupo Ocidental mataram sete machos adultos e 17 filhotes do grupo Central. Embora fossem numericamente superiores, os machos do grupo Central curiosamente nunca se uniram para matar qualquer dos chimpanzés ocidentais.
Mas o que desencadeou a violência? Animais que passam de amigos a inimigos geralmente competem por comida escassa. Mas em Ngogo “ainda havia muita comida nesta floresta”, diz Aaron Sandel, primatólogo da Universidade do Texas, em Austin, e autor principal do estudo.
Segundo o coautor John Mitani, primatólogo da Universidade de Michigan, um fator contribuinte pode ser o fato que “os chimpanzés de Ngogo foram vítimas do próprio sucesso. O grupo continuou a crescer, crescer e crescer, até atingir um tamanho em que os indivíduos já não conseguiam se unir.”
Informações do estudo “Civil war among wild chimpanzees” – https://www.science.org/doi/10.1126/science.aeg6719