Nova descoberta de bem-estar de chimpanzés é feita no Brasil
postado em 04 fev 2026
Legenda: Noel foi um dos chimpanzés estudados (Foto: Dra. Juliana Kihara)

Por Jaqueline B. Ramos

Um estudo de campo realizado no Santuário de Grandes Primatas de Sorocaba, no interior de São Paulo, revelou um novo achado importante para a análise de bem-estar de chimpanzés em cativeiro. Segundo a autora do estudo, a médica veterinária Juliana Kihara, de acordo com a base teórica até então, chimpanzés menos estressados têm preferência do uso da mão direita, enquanto os mais estressados, da mão esquerda, relacionada ao lado direito do cérebro. No entanto, suas observações demonstraram chimpanzés com sintomas de estresse usando a mão direita.

“Por isso, concluímos previamente que lateralidade não é um indicador confiável de bem-estar e que precisa ser melhor estudada”, diz a veterinária, cujo estudo faz parte da sua recém-concluída pesquisa de Mestrado em Comportamento Animal na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Dra. Kihara trabalhou por 12 anos (2013 a 2025) no Santuário de Grandes Primatas de Sorocaba, uma das instituições afiliadas ao Great Ape Project Brasil/Internacional e o maior empreendimento dedicado a resgate, reabilitação e cuidados permanentes de chimpanzés da América Latina. Atualmente o Santuário abriga 42 chimpanzés, todos oriundos de situações de maus-tratos em circos, zoológicos e atividades comerciais.

Bem-estar e individualidades

Ao longo de 4 meses no ano de 2023, Dra. Kihara realizou observação comportamental de 41 chimpanzés, de idades que variavam de 6 a 55 anos. Foram 6 sessões de meia hora de modo focal (específico em indivíduos) e scans (retratos do grupo) feitas a cada cinco minutos. O objetivo era entender como dois indicadores importantes de bem-estar – uso do espaço e lateralidade cerebral – poderiam ser influenciados por diferenças individuais (personalidade), além de idade, gênero, origem (onde viviam anteriormente ao Santuário), condições de criação materna (se foram criados pela mãe chimpanzé, por um ser humano ou se tal fato é desconhecido) e condições de vida social atual (se vivem em grupo ou sozinhos).

O uso do espaço diz respeito à diversidade do uso do recinto, ou seja, se concentram-se mais em um espaço determinado ou se utilizam áreas diferentes do recinto. A lateralidade cerebral é explicada pela assimetria cerebral (cada lado do corpo ser comandado pelo hemisfério cerebral contra-lateral) e as diferentes funções dos hemisférios direito e esquerdo – o direito é relacionado com emoções fortes negativas (medo/agressividade). Assim, foi realizada observação da preferência do uso das mãos durante comportamentos relaxados (comer, se coçar, manipular objetos), a fim de se obter a lateralidade desses chimpanzés.

Entre alguns resultados prévios identificados – e que já eram esperados e se confirmaram – estão, por exemplo, o fato da criação por humanos na primeira infância influenciar um comportamento mais solitário e neurótico em chimpanzés machos; e também o fato de chimpanzés oriundos de práticas que não envolviam exibição (circos e zoológicos) tenderem a ser menos neuróticos, mais extrovertidos e mais agradáveis, sendo, portanto, mais sociáveis. Também se demonstrou que chimpanzés com maior comportamento de estresse têm menor diversidade do uso do espaço.

Os resultados mais surpreendentes foram então os relacionados à lateralidade, que se revelaram diferentes do que havia sido demonstrado em estudos anteriores. “Minha observação mostra que chimpanzés dominantes e menos abertos a novas experiências fazem maior uso da mão esquerda; e que os com maior comportamento de estresse fazem maior uso da mão direita”, destaca a veterinária.

O achado de estresse podendo se relacionar ao uso da mão direita foi de encontro com o que sempre foi considerado pela comunidade científica e abre margens para novas abordagens de estudo de comportamento e bem-estar de chimpanzés em cativeiro. “Na verdade a minha observação mostrou que os chimpanzés mais estressados usavam de fato sua mão direita. Isso sugere que a preferência por qual mão usar é muito mais complexa do que achávamos”, ela aponta.

Estudo brasileiro teve destaque em congresso internacional

Juliana Kihara foi a única profissional brasileira especializada na rotina clínica de chimpanzés em cativeiro convidada a apresentar resultados de seus estudos de campo no último Congresso Internacional de Primatologia, ocorrido em julho de 2025 em Madagascar. O evento é organizado a cada dois anos pela Sociedade Internacional de Primatologia (IPS – International Primatological Society).

Ela apresentou estes novos achados do seu trabalho no Simpósio sobre avanços de Bem-Estar de Primatas Não-Humanos, conduzido pelo comitê de bem-estar e cuidados em cativeiro da IPS. O evento contou com a presença de pesquisadores renomados na área de primatologia de várias partes do mundo, funcionando como um espaço muito relevante para atualização dos temas relacionados a bem-estar em diferentes instituições.

A divulgação do estudo em cenário internacional, ainda que em forma de resultados prévios, foi uma oportunidade muito importante para demonstrar o trabalho dedicado de Santuários brasileiros com chimpanzés que foram vítimas de variadas formas de exploração e que estão fadados a viver em cativeiro, e a importância da análise e avaliação do comportamento destes indivíduos, para aprimoramento de nível de bem-estar.

“Acredito que temos um novo caminho a percorrer para inspirar novas pesquisas no Brasil com grandes primatas, além de mostrar a importância do trabalho dos Santuários. Compartilhar nossos conhecimentos e resultados de pesquisas é fundamental para nutrir nossa sociedade e para melhorar constantemente nosso trabalho”, conclui Dra. Kihara.